sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Memórias da Infância - O fogão de lenha.

        Nasci e cresci no interior. Na cozinha de fogão de lenha, é o lugar onde todos ficavam, ao redor da mesa e longe do fogão se fosse verão, ou em volta do fogão, se fosse inverno. E o inverno é frio. 
         Lembro de meu pai assando pinhão ou amendoim diretamente na chapa. Quando era criança, lembro do meu avô, "brustolando" polenta na chapa do fogão, e o sabor era outro. "Brustolare la polenta", quer dizer que se corta fatias de polenta, já cozida e fria, e assa-se diretamente sobre uma chapa. Anos depois, em minha casa, compraram uma frigideira especial para preparar a polenta, mas o sabor já não era o mesmo. Lembro também do meu nonno preparando a polenta num pequeno caldeirão que se chamava, não sei o motivo de calheiro. Ele começa os preparativos quando estava escurecendo. Acender o fogo, colocar o calheiro com água no fogão. Depois, quando a água estivesse fervendo adicionar a farinha e sal, e mexer, e este procedimento levava tempo. Tempo em que nonno  contava histórias ou me ensinava canções em "talian", que é o nome que o pessoal da serra gaúcha dá ao dialeto italiano que se fala por lá.
       É claro que a tarefa de providenciar lenha é a tarefa que exigia mais força bruta, isto estava a cargo de meu pai e anos mais tarde, passei a ajudar. Recolher os gravetos,  partir os tocos maiores e transformá-los em pedaços menores. Gravetos de plátano, e espinho de araucária, para começar o fogo, logo, pedaços de lenha mais robustos para aquecer e "fazer brasa" como diz a nonna.
       Em ocasiões especiais, em geral algum domingo ou feriado santo, uma das delícias era a galinha garnizé ou de angola recheada, que a nonna, como ninguém,  prepara no forninho do fogão de lenha. A ave ficava marinando de um dia para o outro numa mistura que cheirava pela cozinha, e no dia seguinte, o interior da ave era completamente tomado por "pien", que traduzindo do dialeto vêneto, quer dizer literalmente recheio. Uma mistura de pão torrado e ralado, queijo parmesão, carne moída e muitos temperos. Colocave-se a galinha no forninho lá pelas nove e meia e era preciso aguardar até a hora do almoço. Era uma festa, todos comiam alegremente até o último pedaço.
       Há coisas que nos acompanham pela vida, cheiros, sabores, lembranças. Ah, o fogão de lenha...
                                                                                                                                              G.T.






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