domingo, 20 de novembro de 2011

Memórias de infância II- A horta

        De vez em quando sinto uma enorme saudade da horta. Sim da horta que minha avó (nonna) tem e que cuida com carinho na casa onde nasci.Os temperos ao lado, o canteiro da salsa, o da cenoura, feijão de vagem, alface, repolho, flores, todo o necessário.  Sim as flores também são necessárias em uma horta. Quantas vezes à noite esquecia-se um tempero, e no escuro, corria-se até a horta pata buscar, e sabia-se de memória onde estava. 
        A horta é um ser que vive. Deve-se prepará-la, cuidá-la, colher, e recomeçar. 
       Os homens, em minha casa, são responsáveis pelas tarefas mais pesadas, renovar a terra, revolvê-la e eventualmente preparar os canteiros. Depois, a horta é universo feminino. Elas plantam as sementes, replantam as mudas nos devidos canteiros, regam quando o clima é seco, cobrem os vegetais quando é frio e a geada se anuncia para o dia seguinte. É preciso esmero, carinho, dedicação. Depois colher e recomeçar. Minha nonna é quem mais se ocupa da horta. Seu amor é retribuído na colheita. Pois bem sabe ela, no alto de seus oitenta e poucos anos, que a gente se alimenta também de amor.
       Do lugar de onde venho, todas as famílias possuem uma horta, embora todas se pareçam, o bom observador verá que cada uma é um universo particular e são um reflexo de quem as cuidas. Gostava de caminhar pela minha comunidade e observar os jardins e as hortas, as hortas geralmente cercadas por alguma grade, para que os animais não entrassem, são uma espécie de espaço sagrado. Onde o homem (ou na maioria dos casos, a mulher) e a terra se fazem íntimos.
        Em minha casa, ainda hoje,  na entrada da horta estão os temperos. Orégano, hortelã, manjerona, salsinha, cebolinha, sálvia, alecrim, tomilho... Depois as verduras e legumes. Cenoura, beterraba, tomates e feijões de vagem (na estação correta), e um variado tipo de folhas comestíveis. Na estrada ao lado do portão, crescem displicentemente morangos, que pouco produzem, mas este pouco que parece frutificar tão desinteressadamente e pela paixão de frutificar. E o sabor, ah, o sabor.....
        Em alguns lugares da horta, há flores. Dependendo da época, se encontram crisântemos, "cristas de galos",e outras variando todo ano, mas sempre há rosas. Há um jardim justo em frente, e estas flores, só podem ser vistas por quem adentra a horta. Nunca peguntei o porquê de plantar flores ali, e hoje quando penso me dou conta que não preciso de uma resposta, basta sorriso da lembrança.



sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Memórias da Infância - O fogão de lenha.

        Nasci e cresci no interior. Na cozinha de fogão de lenha, é o lugar onde todos ficavam, ao redor da mesa e longe do fogão se fosse verão, ou em volta do fogão, se fosse inverno. E o inverno é frio. 
         Lembro de meu pai assando pinhão ou amendoim diretamente na chapa. Quando era criança, lembro do meu avô, "brustolando" polenta na chapa do fogão, e o sabor era outro. "Brustolare la polenta", quer dizer que se corta fatias de polenta, já cozida e fria, e assa-se diretamente sobre uma chapa. Anos depois, em minha casa, compraram uma frigideira especial para preparar a polenta, mas o sabor já não era o mesmo. Lembro também do meu nonno preparando a polenta num pequeno caldeirão que se chamava, não sei o motivo de calheiro. Ele começa os preparativos quando estava escurecendo. Acender o fogo, colocar o calheiro com água no fogão. Depois, quando a água estivesse fervendo adicionar a farinha e sal, e mexer, e este procedimento levava tempo. Tempo em que nonno  contava histórias ou me ensinava canções em "talian", que é o nome que o pessoal da serra gaúcha dá ao dialeto italiano que se fala por lá.
       É claro que a tarefa de providenciar lenha é a tarefa que exigia mais força bruta, isto estava a cargo de meu pai e anos mais tarde, passei a ajudar. Recolher os gravetos,  partir os tocos maiores e transformá-los em pedaços menores. Gravetos de plátano, e espinho de araucária, para começar o fogo, logo, pedaços de lenha mais robustos para aquecer e "fazer brasa" como diz a nonna.
       Em ocasiões especiais, em geral algum domingo ou feriado santo, uma das delícias era a galinha garnizé ou de angola recheada, que a nonna, como ninguém,  prepara no forninho do fogão de lenha. A ave ficava marinando de um dia para o outro numa mistura que cheirava pela cozinha, e no dia seguinte, o interior da ave era completamente tomado por "pien", que traduzindo do dialeto vêneto, quer dizer literalmente recheio. Uma mistura de pão torrado e ralado, queijo parmesão, carne moída e muitos temperos. Colocave-se a galinha no forninho lá pelas nove e meia e era preciso aguardar até a hora do almoço. Era uma festa, todos comiam alegremente até o último pedaço.
       Há coisas que nos acompanham pela vida, cheiros, sabores, lembranças. Ah, o fogão de lenha...
                                                                                                                                              G.T.






quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Churros españoles!


Você vai precisar dos seguintes ingredientes (para 4 pessoas):

250gr de farinha de trigo
25 ml de azeite de oliva
10 gr de sal
500 ml de água

Mode de fazer:

Ponha a água para ferver com o sal e o azeite. Quando começar a ferver adicione a farinha e mexa energicamente com uma espátula. Em seguida, retire do fogo e siga mexendo até a mistura se tornar homogênea.
Em um frigideira, coloque óleo de girassol e deixe aquecer até 180º, 190º graus. Com um saco de confeitar, também chamado de saco de pasteleiro,com uma boquilha grande, e estrelada, de modo a deixar a tradicional forma nos churros, molde-os e coloque-os sobre uma superfície antiaderente, corte em pedaços de mais ou menos 15 cm.Depois frite-os no azeite até dourarem. Escorra em papel antiaderente. E pronto. Prepare uma calda quente de chocolate, ou ainda basta polvilhar um pouco de açúcar, e bom apetite!!!

Aqui, o vídeo em espanhol ensinando todos os passos da receita.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

A cozinha. Por Rubem Alves.


Qual é o lugar mais importante da sua casa? Eu acho que essa é uma boa pergunta para início de uma sessão de psicanálise. Porque quando a gente revela qual é o lugar mais importante da casa, a gente revela também o lugar preferido da alma. Nas Minas Gerais onde nasci o lugar mais importante era a cozinha. Não era o mais chique e nem o mais arrumado. Lugar chique e arrumado era a sala de visitas, com bibelôs, retratos ovais nas paredes, espelhos e tapetes no chão. Na sala de visitas as crianças se comportavam bem, era só sorrisos e todos usavam máscaras. Na cozinha era diferente: a gente era a gente mesmo, fogo, fome e alegria.
"Seria tão bom, como já foi...", diz a Adélia. A alma mineira vive de saudade. Tenho saudade do que já foi, as velhas cozinhas de Minas, com seus fogões de lenha, cascas de laranja secas, penduradas, para acender o fogo, bule de café sobre a chapa, lenha crepitando no fogo, o cheiro bom da fumaça, rostos vermelhos. Minha alma tem saudades dessas cozinhas antigas...
Fogo de fogão de lenha é diferente de todos os demais fogos. Veja o fogo de uma vela acesa sobre uma mesa. É fogo fácil. Basta encostar um fósforo aceso no pavio da vela para que ela se acenda. Não é preciso nem arte nem ciência. Até uma criança sabe. Só precisa um cuidado: deixar fechadas as janelas para que um vento súbito não apague a chama. O fogo do fogão é outra coisa. Bachelard notou a diferença: "A vela queima só. Não precisa de auxílio. 
         A chama solitária tem uma personalidade onírica diferente da do fogo na lareira. O homem, diante de um fogo prolixo pode ajudar a lenha a queimar, coloca uma acha suplementar no tempo devido. O homem que sabe se aquecer mantém uma atitude de Prometeu. Daí seu orgulho de atiçador perfeito..." Fogo de lareira é igual ao fogo do fogão de lenha. Antigamente não havia lareiras em nossas casas. O que havia era o fogo do fogão de lenha que era, a um tempo, fogo de lareira e fogo de cozinhar.
         As pessoas da cidade, que só conhecem a chama dos fogões a gás, ignoram a arte que está por detrás de um fogão de lenha aceso. Se os paus grossos, os paus finos e os gravetos não forem colocados de forma certa, o fogo não pega. Isso exige ciência. E depois de aceso o fogo é preciso estar atento. É preciso colocar a acha suplementar, do tamanho certo, no lugar certo. Quem acende o fogo do fogão de lenha tem de ser também um atiçador.
         O fogão de lenha nos faz voltar "às residências de outrora, as residências abandonadas mas que são, em nossos devaneios, fielmente habitadas" (Bachelard). Exupèry, no tempo em que os pilotos só podiam se orientar pelos fogos dos céus e os fogos da terra, conta de sua emoção solitária no céu escuro, ao vislumbrar, no meio da escuridão da terra, pequenas luzes: em algum lugar o fogo estava aceso e pessoas se aqueciam ao seu redor.
         Já se disse que o homem surgiu quando a primeira canção foi cantada. Mas eu imagino que a primeira canção foi cantada ao redor do fogo, todos juntos se aquecendo do frio e se protegendo contra as feras. Antes da canção, o fogo. Um fogo aceso é um sacramento de comunhão solitária. Solitária porque a chama que crepita no fogão desperta sonhos que são só nossos. Mas os sonhos solitários se tornam comunhão quando se aquece e come.
         Nas casas de Minas a cozinha ficava no fim da casa. Ficava no fim não por ser menos importante mas para ser protegida da presença de intrusos. Cozinha era intimidade. E também para ficar mais próxima do outro lugar de sonhos, a horta-jardim. Pois os jardins ficavam atrás. Lá estavam os manacás, o jasmim do imperador, as jabuticabeiras, laranjeiras e hortaliças. Era fácil sair da cozinha para colher xuxús, quiabo, abobrinhas, salsa, cebolinha, tomatinhos vermelhos, hortelã e, nas noites frias, folhas de laranjeira para fazer chá.
        Ah! Como a arquitetura seria diferente se os arquitetos conhecessem também os mistérios da alma! Se Niemeyer tivesse feito terapia, Brasília seria outra. Brasília é arquitetura de arquitetos sem alma. Se eu fosse arquiteto minhas casas seriam planejadas em torno da cozinha. Das coisas boas que encontrei nos Estados Unidos nos tempos em que lá vivi estava o jeito de fazer as casas: a sala de estar, a sala de jantar, os livros, a escrivaninha, o aparelho de som, o jardim, todos integrados num enorme espaço integrado na cozinha. Todos podiam participar do ritual de cozinhar, enquanto ouviam música e conversavam. O ato de cozinhar, assim, era parte da convivência de família e amigos, e não apenas o ato de comer. Eu acho que nosso costume de fazer cozinhas isoladas do resto da casa é uma reminiscência dos tempos em que elas eram lugar de cozinheiras negras escravas, enquanto as sinhás e sinhazinhas se dedicavam, em lugares mais limpos, a atividades próprias de dondocas como o ponto de cruz, o frivolité, o crivo, a pintura e a música. Se alguém me dissesse, arquiteto, que o seu desejo era uma cozinha funcional e prática, eu imediatamente compreenderia que nossos sonhos não combinavam, delicadamente me despediria e lhes passaria o cartão de visitas de um arquiteto sem memórias de cozinhas de Minas.
          As cozinhas de fogão de lenha não resistiram ao fascínio do progresso. As donas de casa, em Minas, por medo de serem consideradas pobres, dotaram suas casas de modernas cozinhas funcionais, onde o limpíssimo e apagado fogão à gás tomou o lugar do velho fogão de lenha. As cozinhas, agora, são extensões da sala de visitas. Mas isto é só para enganar. A alma delas continua a morar nas cozinhas velhas, agora transferidas para o quintal, onde a vida é como sempre foi. Lá é tão bom, porque é como já foi.
          Eu gostaria de ser muitas coisas que não tive tempo e competência para ser. A vida é curta e as artes são muitas. Gostaria de ser pianista, jardineiro, artista de ferro e vidro - talvez monge. E gostaria de ter sido um cozinheiro. Babette. Tita. Meu pai adorava cozinhar. Eu me lembro dele preparando os peixes, cuidadosamente puxando a linha que percorre o corpo dos papa-terras, curimbas, para que não ficassem com gosto de terra. E me lembro do seu rosto iluminado ao trazer para a mesa o peixe assado no forno.
          Faz tempo, num espaço meu, eu gostava de reunir casais amigos uma vez por mês para cozinhar. Não os convidava para jantar. Convidava para cozinhar. A festa começava cedo, lá pelas seis da tarde. E todos se punham a trabalhar, descascando cebola, cortando tomates, preparando as carnes. Dizia Guimarães Rosa: "a coisa não está nem na partida e nem na chegada, mas na travessia." Comer é a chegada. Passa rápido. Mas a travessia é longa. Era na travessia que estava o nosso maior prazer. A gente ia cozinhando, bebericando, beliscando petiscos, rindo, conversando. Ao final, lá pelas onze, a gente comia. Naqueles tempos o que já tinha sido voltava a ser. A gente era feliz.
         Sinto-me feliz cozinhando. Não sou cozinheiro. Preparo pratos simples. Gosto de inventar. O que mais gosto de fazer são as sopas. Vaca atolada, sopa de fubá, sopa de abóbora com maracujá, sopa de beringela, sopa da mandioquinha com manga, sopa de coentro... Você já ouviu falar em sopa de coentro? É sopa de portugueses pobres, deliciosa, com muito azeite e pão torrado. A sopa desce quente e, chegando no estômago, confirma...A culinária leva a gente bem próximo das feiticeiras. Como a Babette (A festa de Babette) e a Tita (Como água para chocolate)... (Correio Popular, Caderno C, 19/03/2000.)



Vatel- Um banquete para o rei


Para salvar  sua província das dívidas, o príncipe Condé, resolve convidar o rei Luis XIV para um banquete, cujo o encarregado será François Vatel, o mordomo do príncipe, personagem vivido por Gerard Depardieu. O filme é dirigido por Roland Joffé e tem ainda participação dos atores Tim Roth e Uma Thurman.


François Vatel foi um célebre cozinheiro em seu tempo e lhe é atribuída a invenção do creme Chantilly. Acabou por suicidar-se, por razões que até hoje não são claras. Sua morte foi tida como uma tragédia nacional.


Abaixo o trailer do filme: